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Poesias
POEMA DAS MÃOZINHAS   E aquelas mãozinhas, tão leves, tão brancas, riscavam as paredes, quebravam os bonecos,  armavam castelos de areia na praia, viviam as duas qual João mais Maria.   À boca da noite o cata-piolhos rezava baixinho:   “ Pelo sinal da Santa Cruz livre-nos Deus Nosso Senhor ”.   E aquelas mãozinhas  dormiam unidinhas qual João mais Maria.   “ Dedo mindinho. Sêo-vizinho, O Pai-de-todos, Sêo Fura-bolos, Cata-piolhos, quede o toicinho? _ O gato comeu ”.   Nas noites de lua cheinhas de estrelas, sêo Fura-bolos contava as estrelas... O Pai-de-todos cuidava dos outros: nasciam berrugas no Cata-piolhos.   E aquelas mãozinhas viviam sujinhas qual João mais Maria...     Um dia (que dia!) O Dedo-mindinho feriu-se num espinho... E à boca da noite o Cata-piolhos deixou de rezar.   E João mais Maria, juntinhos, ligados, pararam em cruz cobertos de fitas que nem dois bonecos sem molas, quebrados...    Quem compra um boneco da loja de Deus?           (Poesias Completas - Jorge  de Lima)